sábado, 17 de julho de 2004

Entrevista com o cineasta Ugo Giorgetti



Entrevista com o cineasta Ugo Giorgetti realizada na manhã de 28 de junho de
2004 para a equipe 2001 Vídeo

Você considera o seu cinema como um cinema de autor? Você se considera um
cineasta autoral?

Eu nunca pensei nisso não, eu me considero um cineasta que faz os filmes que
quer, se você considerar que é autor, eu aceito, mas eu nunca pensei nisso
não, assim como uma proposição teórica. O que eu gosto é de ter o controle
dos filmes. O que quer dizer ter o controle dos filmes? Ter as decisões na
minha mão, as decisões mais importantes do filme. O que elas são? Roteiro,
casting e montagem final, é isso. Se eu tiver o controle sobre isso eu me
dou por muito feliz. Se você achar que isso é filme de autor, tudo bem para
mim. Agora, eu nunca pensei numa coisa assim, me colocar como um ser que é o
filme, eu sei que eu não sou o filme, é uma infantilidade. Mas manter o
controle das instâncias importantes do filme, isso eu faço questão.

O que se considera como cinema de autor é aquele que tem uma identificação
autoral. A tua obra revela uma estrutura particular feita por uma única
pessoa. Assim, você seria um cineasta autoral. Porque todos os seus filmes
tem uma cara extremamente definida, saindo de uma alma única.

Provavelmente exatamente pelas razões que eu falei antes se você concentra o
roteiro que eu escrevo, o casting que eu escolho, e a montagem final que
basicamente eu aprovo se é que eu não determino, eu confesso que seria um
arbitrarismo absoluto, quase uma tirania absurda, não há nada de democrático
nisso, mas é uma maneira de fazer cinema eu acho.

Você fez o roteiro de todos seus filmes. Cabe um dia você filmar um roteiro
que não é seu ou isso é inviável?

Não, não é inviável, não. Como dizia um educador brasileiro importante: "Eu
não tenho nenhum compromisso com as minhas idéias", o que eu fiz não quer
dizer que eu vá fazer, isso não, o problema é que você é brasileiro, tudo é
muito incerto, né? O Paulo Emilio sabia disso, ele costumava dizer que não
há cinema brasileiro, há filmes; não sei se isso é verdade. Então, é muito
difícil você ter um manancial de roteiros a sua disposição, você ter
roteiristas que trabalhem com você, é difícil porque a estrutura de cinema
não permite isso.

Você cria o roteiro a partir de uma idéia tua, você nunca adaptou, por
exemplo, uma obra literária. Você adaptaria uma obra literária?

Adaptar uma obra é uma outra coisa, se você fizer um roteiro e me trouxer,
que saiu da sua cabeça, e você fez um roteiro originalmente para cinema, eu
não teria nenhum problema em examinar se coincide com o meu universo, e por
que não filmar? Isso é uma coisa, agora, outra coisa é pegar um livro e
adaptar pra cinema. Aí eu tenho uma série de preconceitos, por exemplo, eu
acho que o cinema faria muito bem se deixasse a literatura em paz porque
normalmente quando você adapta uma obra, não faz nenhum bem para o cinema, e
faz muito mal para a literatura em geral. É muito difícil inclusive porque
acho que tem a ver mas não tanto. Um livro é um livro, ele tem uma
estrutura, uma técnica, uma maneira de narrar os acontecimentos,
completamente deferente do cinema. Se você pegar um grande... Eu não
consigo... Assim... Rapidamente, me lembrar de um grande livro que tenha
tido uma grande adaptação, talvez O Leopardo, de Visconti. Mesmo assim,
Visconti foi adaptar O Estrangeiro, de Albert Camus, e fez um negócio
desagradável. É complicado isso aí. Isso é um ponto. Eu acho que o cinema
tem que ser adulto, criar sua própria dramaturgia; tem que criar seus
roteiros originais para crescer e não ser caudatário da literatura Esse
negócio é besteira, fala-se assim "nós estamos divulgando o Flaubert". Pô,
divulgar Flaubert? Flaubert tem mais leitores hoje, depois de tanto tempo
que ele escreveu, uma coisa mais do que centenária, que nenhum filme vai
chegar. Isso é uma idiotice e normalmente você não faz à altura da obra.
Quando não - o que é pior - é você usar a obra para alavancar o filme. Se
você é um diretor, como eu, é um risco muito grande, você fazer um filme, no
qual você escreve o roteiro e dirige - e o sujeito vai ao cinema para ver
inteiramente uma coisa que você concebeu. Agora, digamos que eu escolho um
grande nome da literatura brasileira. Primeiro lugar, esse nome consagrado
terá leitores, portanto já, você tem um primeiro pensamento que é o seguinte
esses leitores provavelmente se sentirão impelidos a ver o filme, então você
já tem um mercadinho. Depois, se eu falo "Graciliano Ramos", eu já me coloco
em uma estatura intelectual interessante, pelo menos eu devo ter lido
Graciliano Ramos para poder fazer o filme. E, no fim, acabo dividindo a
mesma responsabilidade com Graciliano Ramos, que é inatacável, pô. Quem vai
atacar Graciliamos Ramos? Muita gente alavanca e tem como substrato, de sua
obra, um grande nome literário e geralmente estraga o nome literário. Então
por essas razões, eu acho que eu não gostaria de adaptar livro, embora eu
ache que um livro, como o Ateneu, do Raul Pompéia... Eu faria esse filme.
Mas não me atrevo porque é um grande livro. Outra coisa é o respeito que eu
tenho pela literatura.

Agora dentro da sua filmografia, você mantém sua veia documentarista
paralelo à produção ficcional. Poucos cineastas fazem isso; ou ele é só
documentarista ou só faz ficção; e você está sempre intercalando ou
misturando as duas coisas. Por que isso?

Eu gosto de filmar e nos últimos trinta e poucos anos eu saio da minha casa
todo o dia para fazer cinema, comerciais para televisão ou não. Eu não
consigo ficar parado esperando fazer um filme a cada três anos, realmente
não é possível pra mim isso. Eu filmo qualquer coisa, tenho uma necessidade
biológica de filmar [...] não quer dizer que o documentário seja qualquer
coisa, muito pelo contrario, mas o documentário é mais viável
economicamente, mas em geral, isso do ponto de vista do orçamento de
problemas de profissão ele é muito mais viável que o longa-metragem, por
tanto ele pode ser feito com menos recursos. Então eu faço tranqüilamente
documentários também por isso, e depois também porque nos meus filmes são,
se você for examinar a ficção que eu faço, ela é um pouco documental. Ela
passa um pouco pelo documentário. Eu gosto muito do documentário.

Quais foram e são suas influências cinematográficas?

Olha, eu tenho uma teoria muito particular a respeito disso, e não é
brincadeira, nem ironia, é, é um pouco de ironia, mas não totalmente. A
influência é com quem você trabalha, não com quem você vê, isto é, não
adianta você ir ver 200 filmes do Robert Altman e dizer que ele foi uma
influência, porque você nunca viu o Robert Altman na sua vida. A influência
que você tem, na minha opinião, é de um diretor com quem você trabalhou, com
quem você viu, você viu o cara trabalhar, você sentou com ele num boteco,
botou uma cerveja no meio, começou a discutir com ele e o cara deu algumas
dicas, porque o cinema é muito feito de dicas técnicas, de pequenos truques.
E não é olhando na tela que se aprende isso. Sinceramente, falando sério, a
grande influência que eu tive foi um diretor de comerciais, com quem eu
trabalhei, que é o Julio Xavier de Silveira, que está aí até hoje, que só
fez um filme de longa-metragem e depois ele não quis fazer mais. Mas, é
verdade, uma das grandes influências que eu tive foi o Chick Fowle, o
fotografo do Cangaceiro e do Pagador de Promessas. Então, eu sentava com o
Chick Fowle e conversava com ele sobre fotografia e montagem. Outra grande
influência foi o Roberto Santos, que eu sentava no bar e conversava com o
Roberto, não é que o Roberto fosse um diretor sueco, o Bergman, que estava
na ilha dele lá, de Faro, e eu aqui, achando que ele estava me
influenciando. Quem me influenciava era o Roberto e a gente sentava num bar
na esquina da Rua Fortaleza com a rua Conselheiro Carrão e batia papo. O
Walter Carvalho, não o Walter Carvalho do Rio, nosso Walter Carvalho aqui,
que é um fotografo de comerciais importantes, também com ele. Então, as
influências são com quem você tem contato; eu acho muito complicado você ter
uma influência de um diretor de fora. Você pode gostar, você dizer quais são
os teus diretores favoritos, isso é outra coisa. Agora, quem influenciou a
mim? Essa gente com quem eu trabalhei.

No seu cinema, você tem sempre uma situação com um grupo de personagens, que
estão inseridos num contexto específico, vivendo numa determinada situação,
mas que não pertencem àquela situação.

Bom, primeiro lugar é engraçado você falar isso porque você é uma das
pouquíssimas, acho que raríssimas pessoas que fez essa leitura, que eu acho
muito boa por sinal. Mas normalmente a leitura é fácil, não, o cara faz
filmes sobre a cidade de São Paulo. Eu não sei explicar, provavelmente, deve
ter alguma coisa em mim também de deslocado, eu acho. Não é consciente, nem
eu tinha me atentado a isso. Eu também não tinha percebido isso com a força
que você está colocando, mas eu concordo que deve ter alguma coisa de
pessoal nisso evidentemente. Eu não tenho nenhum filme que seja
autobiográfico, mas talvez todos sejam autobiográficos de certa maneira.

Essa idéia comum que você é um cineasta paulistano, essa imagem te incomoda?
Você utiliza bem São Paulo como cenário, você gosta da cidade de São Paulo,
mas isso não é o mais importante do teu cinema. Você é sempre rotulado pela
mídia. Agora, de "cineasta paulista" para "cineasta do futebol", depois de
Boleiros.

Eu acho inevitável porque você tem uma superficialidade, tirando alguns
críticos importantes. Aliás, muitos poucos críticos falam isso, quem fala
isso geralmente é o jornalista de plantão, é o cara que vem te entrevistar,
não é aquele que analisa o teu filme. Então, ele parte para o fácil, para o
imediatamente acessível: Ah, cineasta paulista, futebol, etc. Eu acho
inevitável, eu não vou ficar mudando por causa disso entendeu. Agora, é
engraçado, tirando o Campos Elíseos e O Príncipe também, que é um filme um
pouco mais localizado, o resto pode ter endereços, mas no Jogo Duro é feito
numa casa, não é feito na cidade, uma casa num bairro . A Festa não aparece
um único plano da cidade, e no Sábado aparece um plano da cidade no fim do
filme. Boleiros também é confinado num bar. Eu sou muito preguiçoso para
filmar fora. Primeiro eu nasci aqui, não tenho nenhuma vinculação nem com a
natureza, nem com o campo, nem com outros "brasis", que tem por aí, que eu
acho também importantes. Mas eu tenho meu próprio Brasil que é isso aí. Não
vou ficar adaptando livro no sertão, que ainda vai me causar picada de
inseto. Mas eu acho que é inevitável.

Assistindo ao documentário Uma Outra Cidade, e vendo todo o engajamento da
tua geração naquela época, e associando ao Príncipe, percebemos no filme que
os intelectuais vivem numa situação de conformismo social. Você acha que
essa é a situação da intelectualidade hoje? O personagem do Ewerton de
Castro em O Príncipe, por exemplo.

Não tenha duvida nenhuma. Você pode reparar que dentro das questões
brasileiras o intelectual se limita a dar aula, ele não participa
efetivamente. Não há grandes manifestações no Brasil, mas eu acho que também
deveria partir do intelectual a organização de manifestações publicas, por
exemplo. Você pode ver que, até nos anos 80, qualquer manifestação em Paris,
na frente, estavam os intelectuais. Aquelas fotos do Foucault, e não sei
quem mais, na linha de frente. O cara não vai ficar dentro da escola. Aqui,
eu acho que o intelectual recua, ele fica num gueto, ele escreve no Mais!,
ele tinha que escrever na primeira página da Folha, em tendências & debates.
Alguns escrevem, mas tinha que ser mais contundente. Não, ele se confina num
gueto que é a universidade, que é o Mais!, que é não sei o que, que é a
revista não sei o que lá. E você pega, é claro, um cara combativo como
Antonio Candido, que agora está com mais de 80 anos e representa uma outra
geração de intelectuais; é difícil exigir dele a contundência que ele tinha,
né? Mas, não vejo, não, não vejo mesmo, acho muito pouco crítico. O único
intelectual que eu vejo hoje na linha de frete é o Roberto Mangabeira Unger.
Esse é o cara, na minha opinião, e na minha opinião porque geralmente eu
erro. Eu acho que o Mangabeira Unger é o intelectual, é o cara que vai,
propõe, sai pra porrada. O resto é gente que tem um saber mais ou menos
louvado, muito especializado também. Esse é outro problema, o sujeito é
especialista em um filósofo, é esquisito. O Janoti é um homem combativo
também, mas ele fica muito sujeito aos assuntos da universidade, eu não sei,
mas é um homem também combativo. Mas se você perceber o tamanho do Brasil,
eu acho que tem muito pouca chama para nós mudarmos isso. De quem teria que
partir isso? Dos intelectuais.

Você queria provocar o quê? O que você tentou discutir? O que te incomodava?

Em primeiro lugar, acho que O Príncipe é uma historia sobre a amizade e o
tempo. Em segunda instância, tem o que o tempo faz com a gente, não é só a
distancias. O Príncipe é uma investigação do que essa geração se virou, o
que nos tornamos. Essa geração que tocou o país durante oito anos e ainda
está tocando até hoje. O governo Lula, aliás, é exatamente igual ao
primeiro. Eu não vejo nenhuma diferença entre os caras, que eu retratei, e o
Aluízio Mercadante. Desculpe, mas eu não consigo ver nessa gente, uma chama
transformadora, é a mesma coisa. Então, O Príncipe é uma forma de exame no
que nos tornamos. Nos tornamos isso, pô. O cara que mercantiliza a cultura,
o outro que está no jornal, cínico, completamente apático, fazendo frases de
efeito, e por aí afora. E um que se recolhe, no que ele pode fazer, que é o
personagem do judeu, que trabalha no subterrâneo numa atitude imediatista de
fazer alguma coisa desesperada, sozinha e tal. O professor é um elo frágil
da história toda, é o que nos corta e que parte o delírio porque não vê
outra possibilidade, ele é o mais frágil de todos.

O que você atribui ao fato de O Príncipe não ter sido lançado em vídeo ou
DVD? Por que tua obra já não está indo para o DVD?

Eu não faço nem vídeo, nem DVD, e não distribuo nem vídeo, eu faço filmes.
Quando chega na hora da distribuição, não sou eu. Mas, eu acho, você sabe
muito bem disso, que o vídeo e o DVD estão ligados à carreira que o filme
faz. Se a carreira de um filme é problemática, é problemática a ida dele
para o vídeo e o DVD. E também que confesso a você que não me empenhei muito
nisso, porque acho que inclusive está em tempo. O Príncipe é um filme que
vai ser lançado por você. E também não me importo, acho que ele está sendo
muito bem lançado. A mim importa, sinceramente, espectadores atentos. Não me
importa 250 milhões de espectadores que estão lá catatônicos na frente do
filme. E que depois se pergunta qual é o filme e o cara não sabe nem o
título. Então para mim, não estou falando isso como consolo, pra lançar na
2001 é um nicho do filme, mas é serio, eu pretendo, pretendo fazer o DVD.











sexta-feira, 16 de julho de 2004

MJ na livraria Boca do Sapo & eu na peça Kurt- A Viagem ao Nirvana


Ontem foi um dia muito corrido. Na noite anterior fiquei ensaiando no Teatro Princesa Isabel, em Copacabana, para a peça em que participo como Dave Grohl tocando bateria em algumas musicas e (tentando) pronunciar algumas falas.
A peça estreou ontem e vai durar um mês, de nove às dez e meia da noite.

Gabriel, o baixista, me deixou em casa na quarta e, depois de um necessário banho, dei mais uma lidinha em No Caminho de Swan. Acordei atrasado na quinta e tive que sair correndo de casa, e cheio de acessórios de bateria nas costas. Sem café da manhã, ao chega no trampo não aguentei. Também sou filho e serei pai, e lanchei na tia que vende café da manhã aqui perto de onde passo meus dias a trocar meu corpo e minha mente a serviço da segurança.

Saí cinco e poquinho e fui de van pra Ipanema, onde o Mother tocaria. Fizemos um lanche na padaria perto da livraria. Eu achei o sanduiche dali muito caro e fui comprar um queijo no Zona Sul ali em frente. Pela primeira vez na minha vida (pra não exagerar, tamvez seja a segunda) podia comprar a quantidade de queijo que bem entendesse. Geralmente estipulam o mínimo de 100 gramas. Paguei R$ 0,79 por um pedaço de queijo e R$ 0,30 pelo pão francês. Comi um sanduba a R$ 1,10 enquanto na padaria pagaria R$2,50 pela mesma quantidade de alimento.

Voltando ao show, na hora de tocarmos ( eu tinha que sair dali no máximo 20:30h, para estar em Copa às 21:00h para a peça.
Dony, o paulista, o baixista, sumiu na hora do Mother começar a tocar. Ainda não sei onde ele se meteu, Só sei que ele retornou e o show começou 19:50h. Foi bem rápido e frenético. Esquentamos logo no início e fechamos com Carol's Sound lá pelas 20:35h. Saí dali corendo e peguei um taxi pro teatro.

Cheguei lá já haviam pessoas na entrada aguardando a abertura da porta. Montei as peças que tive que trazer de kombi pela manhâ (e as tinha usado no show do Mother Joans), dmos uma passadinha e as portas foram abertas. Subimos para o camarim e a peça teve início logo depois.
Fora uns errinhos ou outros, tudo bem! Pra quem teve um ensaio com os musicos e um ensaio geral foi muito bom.
Futuro do cinema é digital


Ricardo Calil

14.07.2004 | Se existe uma pessoa capaz de prever o futuro do cinema, esse alguém é Walter Murch. Como editor de som e imagem de alguns dos mais importantes filmes das últimas décadas – “Poderoso Chefão 2”, “Apocalypse Now”, “O Paciente Inglês” e a versão reeditada de “A Marca da Maldade”, entre outros –, ele esteve à frente de alguns dos principais avanços tecnológicos do cinema recente.

Por seu trabalho em “O Paciente Inglês”, Murch foi a primeira pessoa a ganhar um Oscar para um filme editado no computador e também o primeiro a acumular as estatuetas de edição de som e imagem. Ele criou o termo “sound designer” (desenhista de som) para dar conta da complexidade de seu trabalho em “Apocalypse Now”, que também rendeu lhe um Oscar e se tornou referência para o cinema americano. Em seu filme mais recente, Murch novamente assombrou Hollywood ao trocar o sistema digital Avid pelo software Final Cut Pro, um programa de edição barato e popular, para montar o épico “Cold Mountain”, que custou US$ 80 milhões.

Na entrevista a seguir, dada por telefone de Londres, Murch revela algumas das surpreendentes previsões de sua bola de cristal. Para o editor, o filme tal como o conhecemos hoje (a película de celulóide usada para registrar e projetar imagens a 24 quadros por segundo) está com os dias contados. “O cinema será totalmente digital em cinco anos. No máximo, dez”, garante Murch. Aos 61 anos de idade, o montador nova-iorquino vê essas e outras mudanças com grande otimismo e sem qualquer vestígio de nostalgia.

Pouco conhecido do grande público, Murch é um herói para os profissionais de cinema. Fernando Meirelles, o diretor de “Cidade de Deus”, cogitou a hipótese de convidá-lo para montar seu novo filme, “The Constant Gardener”, mas acabou desistindo da idéia. “Pensei que talvez fosse difícil bater bola com alguém tão mais experiente. Como ir jogar um 21 tendo o Michael Jordan no mesmo time”, escreveu o cineasta no seu blog sobre as filmagens. Murch retribui os elogios: “Cidade de Deus é fantástico. Fiquei impressionado com a energia e a estrutura da montagem.”

Além de ser um mestre da edição de som e imagem, Murch já escreveu e dirigiu um filme (o subestimado “O Mundo Fantástico de Oz”, de 1985) e se destaca como pensador do cinema. É esse último talento que ele exerce no livro “Num Piscar de Olhos” (Jorge Zahar Editor, 152 págs., R$ 26,00), que acaba de ser lançado no Brasil e é considerado leitura obrigatória para as pessoas interessadas na arte da montagem cinematográfica.

“Num Piscar de Olhos” foi o livro que Daniel Rezende, montador de “Cidade de Deus”, leu para aprender mais sobre edição. Um ano depois da leitura, curiosamente, ele disputava o Oscar com Murch (“Cidade de Deus” e “Cold Mountain” foram derrotados pelo terceiro volume de “Senhor dos Anéis”).

Na apresentação do livro, Francis Ford Coppola (que teve Murch a seu lado em vários filmes e na fundação da lendária produtora American Zoetrope) escreve: “Nada é tão fascinante quanto passar horas ouvindo as teorias de Walter sobre a vida e o cinema, além das inúmeras partículas de sabedoria que ele deixa pelo caminho, como as migalhas de pão de João e Maria - orientadoras e nutritivas”. A seguir, Murch distribui algumas dessas partículas de sabedoria aos leitores de NoMínimo:

Neste ano, o senhor concorreu ao Oscar com “Cold Mountain” contra “Cidade de Deus” na categoria de edição. O que achou da montagem do filme brasileiro?

Acho o filme fantástico. Assisti várias vezes. E gostei muito de conhecer o (Daniel) Rezende na época do Oscar. É um filme muito complexo, com uma ação que percorre várias décadas e envolve dezenas de personagens. A montagem conseguiu cumprir a difícil tarefa de deixar essa história clara para o espectador. Ela tem um ótimo equilíbrio entre energia e estrutura.

No Brasil, o filme foi criticado por supostamente adotar uma estética publicitária. O senhor concorda?

Não, de forma alguma. Quando pessoas vindas da publicidade decidem fazer cinema, muitas vezes elas não têm o sentido de estrutura de um filme. Esse não foi o caso com o (Fernando) Meirelles e o Rezende. Eles souberam fazer essa transição muito bem.

Por que a montagem dos filmes parece ser cada vez mais frenética?

Não acho que os filmes estejam ficando necessariamente mais rápidos. O que mudou foi o foco da velocidade, do verbal para o visual. Em muitos filmes americanos dos anos 30, os diálogos são tão rápidos que as pessoas hoje teriam dificuldade de acompanhar. Seria como cantar um rap para as pessoas daquela época. Hoje, a velocidade é dada pela montagem, com a alternância de imagens substituindo a de palavras.

O senhor não teme que os filmes fiquem cada vez mais parecidos com videoclipes e propagandas de TV?

Não. Se os filmes ficarem rápidos demais, eles não conseguirão estabelecer uma comunicação efetiva com o público e, portanto, irão fracassar. A montagem de imagens é uma arte jovem, com pouco mais de cem anos. Outras artes estão aí há milhares de anos. Ainda temos que explorar todas as possibilidades da montagem.

Em quanto tempo o senhor acredita que a película cinematográfica irá acabar?

Cinco anos. No máximo, dez. A tecnologia de projeção digital já existe. Agora virou uma questão de saber quem vai pagar por ela, se os estúdios ou os exibidores. Quando eles decidirem rachar a conta, o processo não terá mais volta. Os laboratórios começarão a perder trabalho e cobrar mais pelas cópias em película, até que os custos tornem o método antigo impraticável.

O senhor parece ver essas mudanças sem qualquer nostalgia...

As mudanças são positivas. Não tenho nostalgia pelo cheiro de celulóide. Não dá para voltar atrás. Então, é melhor ver o lado bom das coisas.

No livro, o senhor enumera uma série de vantagens da edição digital em relação à montagem tradicional. Existe alguma desvantagem?

A única coisa que me parece uma desvantagem é que, em algumas mesas de edição antigas, você tinha que ver muito material até chegar ao ponto que queria. E muitas vezes encontrava alguma coisa mais interessante no caminho. Com a edição digital, você vai direto à cena que busca, então pode perder coisas interessantes que o acaso lhe oferece. O que você procura nem sempre é aquilo de que você precisa.

Na montagem tradicional, o corte era um trabalho “braçal”, feito diretamente em uma cópia do negativo. No computador, o processo é mais simples, já que as imagens manipuladas são virtuais. Essa facilidade não faz com que os cortes sejam menos refletidos hoje?

Concordo até certo ponto. Quando você corta o filme fisicamente, você tende a pensar mais. Com o computador, ficou muito simples voltar atrás. É por isso que na escola me obrigavam a escrever redações com caneta. Lápis é fácil de apagar. Editar uma cena complexa no computador é como tocar piano: a seqüência de teclas vem espontaneamente, uma atrás da outra. Por outro lado, os grandes pianistas ensaiam muito antes do concerto. Portanto, já refletiram previamente. No meu caso, eu tiro fotos de cada cena e as coloco na parede antes de começar a editar. Se me preparo bem, sinto que posso pular no abismo e cair em pé.

No livro, o senhor comenta que existe o risco de que as novas tecnologias transformem o cinema em um processo individual, perdendo assim seu sentido de arte coletiva, já que uma única pessoa poderá dominar várias etapas do processo. Quais os problemas que isso traria?

Filmes são baseados na cooperação. É da multiplicidade de emoções envolvidas que nasce o brilhantismo de um filme. Se ele se baseia na emoção de uma só pessoa, pode perder a capacidade de comunicação. Isso aconteceu alguns séculos atrás com as artes plásticas. Antigamente, muitas pessoas tinham que trabalhar em um afresco, sob a supervisão de um artista. Com o surgimento da pintura a óleo, o artista começou a trabalhar sozinho, e o quadro se tornou o resultado de uma única sensibilidade. Como resultado disso, as pinturas ficaram mais herméticas com o passar do tempo. Mas não tenho certeza de que isso irá acontecer com o cinema. Se você olha para os créditos de filmes como “Homem Aranha 2” ou mesmo de “Cold Mountain”, verá que o número de pessoas envolvidas na produção só aumentou, mesmo com o avanço das tecnologias.

Qual será a próxima grande revolução tecnológica no cinema?

Terminar todo o filme em um mesmo computador, incluindo aí a edição de imagem e de som, a correção de luz, a mixagem do som, os efeitos especiais etc. Em pouco tempo, o que sair da mesa de edição vai ser o filme pronto, para ser mandado direto para os cinemas. Essa é uma revolução que já está em curso. É o futuro que nós estamos vislumbrando hoje.

Quais filmes foram importantes na sua formação?

Principalmente os filmes europeus e japoneses dos anos 50 e 60: Kurosawa, Bergman, Godard, Truffaut, Fellini, Lean. Eu tive a sorte de ser um estudante de história da arte em Paris em 1963, quando a Nouvelle Vague era grande.

O senhor diria que trouxe algo da descontinuidade da montagem dessa época para o cinema americano?

Acho que sim. Pelo menos em “A Conversação” (1974), do Coppola. Os takes eram muito grandes. Então, eu cortava direto de um ponto interessante ao outro, mantendo os “pulos” na montagem, no estilo do Godard. Quando começamos a fazer cinema, nossa vontade era trazer uma sensibilidade mais pessoal, mais européia em um certo sentido, para os filmes americanos. Mas isso não valia para todos os filmes. Em “O Poderoso Chefão 2” (1974), que foi feito logo depois de “A Conversação”, a montagem era a clássica da Hollywood dos anos 40.

O senhor prefere ter o diretor a seu lado na montagem ou prefere ficar sozinho?

Eu sou perfeitamente adaptável, mas o ideal é ficar sozinho. O Coppola vê o material de vez em quando, dá sugestões, mas fica longos tempos sem aparecer. Já o (Anthony) Minghella (de “O Paciente Inglês”) está sempre ao meu lado. Eu sou mais crítico comigo mesmo quando estou sozinho. Quando o diretor está ali do lado, ele costuma achar minhas sugestões boas, então acabo seguindo em frente. Se estou sozinho, fico experimentando mais e tentando descobrir alguma coisa melhor.

Em 1988, o senhor remontou “A Marca da Maldade” (1958) de acordo com as notas deixadas por Orson Welles. O fato de não poder dialogar com o diretor tornou o trabalho mais difícil?

Não, por que as notas que Welles deixou eram fantásticas. Muito psicológicas. Não diziam exatamente o que fazer, mas davam a exata noção do que ele tinha em mente. Todas, literalmente todas, notas funcionavam, mesmo 40 anos depois. Se um diretor me desse hoje algumas notas para orientar a edição, metade não funcionaria.

O senhor também fez a nova edição ampliada do “Apocalyse Now”. O senhor considera essa versão melhor que a original?

Acho que a verdade fica no meio das duas. São filmes diferentes. A primeira versão tem mais energia. A segunda é mais complexa, mais profunda.

No livro, o senhor escreve que a montagem da versão original foi seu mais difícil trabalho até hoje. Por quê?

Sim. Foi a mais longa pós-produção em que trabalhei. Levou um ano para montar a imagem e mais um ano para montar o som. O maior problema foi a quantidade de material. A equipe de quatro editores recebeu 1,25 milhão de pés de filme, cinco vezes mais que o normal. Levou um bom tempo para olhar o material e decidirmos para que lado ir. Chegamos a um primeiro corte de cinco horas e tivemos de reduzir para duas horas e meia.

O senhor assombrou Hollywood quando decidiu montar o “Cold Mountain”, um filme que custou US$ 80 milhões, com o Final Cut Pro, um software de edição barato e popular. Por que tomou essa decisão?

O sistema pode ser barato, mas nem por isso é menos sofisticado. Ele me deu maior flexibilidade e poder de criação. Pudemos trabalhar em quatro computadores Power Mac G4 ao mesmo tempo, pelo mesmo preço de uma única estação digital de Avid. É como fazer um grande jantar com um fogão de quatro bocas. A comida pode ficar boa se você usar uma ou duas, mas vai ser mais rápido e prático se usar todas ao mesmo tempo.

O senhor é apicultor nas horas vagas. Existe alguma relação entre essa atividade e a de montador de cinema? Ou é apenas uma maneira de relaxar?

Eu faço uma comparação no livro entre as duas coisas. Se você move uma colméia três quilômetros, as abelhas irão reencontrá-la facilmente. Se move apenas dois metros, elas ficarão desorientadas. O mesmo se dá no cinema. Se você corta de um plano aberto para um close, ninguém vai estranhar. Mas se corta de um plano aberto para outro apenas um pouco mais fechado, as pessoas perceberão um salto e ficarão confusas. Mas acho que essa é a única semelhança. O que eu acho mais fascinante nas abelhas é que elas têm uma inteligência grupal. A cabeça de cada uma é pouco maior do que a de um alfinete. Mas, juntas, elas são muito espertas.

Essa não seria outra semelhança com o cinema?

Não tinha pensado nisso, mas é verdade. Os filmes têm de ser mais inteligentes do que as pessoas que os fizeram.


terça-feira, 13 de julho de 2004

UFOs na Visão Védica
______________________
O Diário
Reportagem com Candramukha Swami
______________________

"SVibhishana chegou com o carro aéreo, que parecia uma montanha,
e disse:
- Entrai a bordo, ele está aqui; que mais posso fazer ?(...)

Quando todos se achavam a bordo, o imenso carro alçou-se com um
estalejar
de fogos de artifício e cataratas; em seguida, silenciosamente,
quando já
subira a uma boa altura, virou-se para o norte, descrevendo ampla
curva
ascendente..."
Ramayana - épico Hindu com mais de 8.000 anos

Maharaja Chandramukha Swami é uma das autoridades védicas no
Brasil, ele
representa (como um Bispo na Igreja Católica) a religião
Vaishnava, que a
maioria das pessoas identifica como os "Hare-Krishnas". Estivemos
com
Chandramukha no dia oito de fevereiro deste ano numa comunidade,
junto a
uma pousada, chamada Vraja-bhumi, em Teresópolis, bem no meio da
serra,
num vale, onde os adeptos e simpatizantes desta filosofia de vida
podem
participar de cerimônias, palestras, cultos e ritos em meio a uma
paisagem
paradisíaca.

João Oliveira - Maharaja o que é o hinduismo e o que é o Hare
Krishna no
Brasil?
Maharaja Chandra-mukha Swami - O termo hinduismo não é encontrado
nas
literaturas védicas, é um termo mais recente.. A história conta
que existe
um rio que divide a Pérsia da Índia e os persas que tentavam
pronunciar o
nome do rio que é Sindhu não conseguiam e falavam Hindu, por isso
eles
começaram a chamar os povos, do lado de lá do rio, de Hindus.
Hoje em dia
o que se chama de hinduísmo é um complexo religioso porque a
literatura
védica é muito profunda e ela reconhece diferentes níveis de
consciência
dos seres humanos e diferentes tipos de caminhos espirituais que
cada um
tem a capacidade de seguir. Existe uma divisão muito grande de
opções
religiosas para que a pessoa vá gradativamente se elevando até
chegar no
nível de perfeição que é o amor a Deus, que é a pratica mais
elevada,
então existem mais ou menos três caminhos: uma é chamado Karma,
outro
Jnana e Bhakti.

Karma é o caminho de motivação material, mas religioso onde a
pessoa se
aproxima de Deus ou de seus agentes, os semi-deuses, em troca de
beneficios materiais. Então na Índia você encontra adoração a
Kali, a
Shiva, a Ganesha em diferentes templos onde os adoradores já tem
uma
relação, já aceita uma autoridade superior, e passa a ter um
intercambio
de serviço e recebe com isso opulências materiais. Depois disso,
e isso
muitas vezes pode durar vidas, a pessoa chega ao segundo estágio
que é
Jnana; ela já não está mais interessada em benefícios grosseiros,
ela quer
Jnana, conhecimento espiritual, então existem outros caminhos,
austeridades, penitencias, meditação, sacrifícios, outra parte da
literatura védica para a pessoa tentar entender o que e ela está
fazendo
aqui, entender Deus, como isso ocorre, como isso é controlado e é
só uma
fase. A fase final, a terceira, é Bhakti ou Prema, o amor a Deus.
Que são
os caminhos mais ligados diretamente a adoração a Deus, e a
renúncia se
torna algo natural, o desapego das coisas grosseiras. Então são
muitos
caminhos muitos processos e tudo isso misturado passou a ser
chamado de
hinduísmo, mas o movimento Hare Krishna está ligado a este último
caminho,
a parte da devoção. A devoção amorosa a Deus é uma visão
politeísta,
existem os semi-deuses, os chamados Devas, que são agentes de
Deus com
funções especificas, como por exemplo: numa cidade especifica tem
o
departamento de águas, o departamento de luz, o de telefonia,
então tem
diferentes departamentos com responsáveis por tudo isso. Também
aqui no
mundo existe Surya o Deus do Sol, Indra o Deus da chuva, Vayo o
do vento,
e assim vai são agente de Deus. Mas algumas vezes uma pessoa
materialista
prefere subornar um agente do governo para poder receber um
beneficio
imediato e pagar a conta mais barato.

JOÃO OLIVEIRA - Como na seca fazer uma promessa para chover?
Maharaja Chandra-mukha Swami - É, você pode fazer uma promessa
para chover
mas não para o semi Deus e sim para Deus. Você vai ter sempre
essas duas
opções; mesmo uma pessoa que tenha desejos materiais a serem
satisfeitos,
isso é normal, ele pode fazer isso buscando Deus. Por exemplo,
uma
criança, um bebê, a medida que ele se desenvolve um pouquinho,
que ele
cresce um pouco, ele vai começar a pedir as coisas para o pai,
mas o pai
vai achar até interessante, vai apreciar, pois faz parte do
avanço natural
da criança, agora chega um momento que a criança cresce que ela
não tem
mais que pedir, ela tem que servir, ela tem que ter primeiro uma
amizade,
depois ela tem que servir o pai. Então existe um estágio que você
é
motivado materialmente a inverter a sua posição, Deus passa a ser
o seu
servo, você vai na Igreja com uma lista de supermercado pedindo
as coisas
e Deus tem que suprir. Tem muitas religiões que colocam assim:
Deus como
meramente um supridor dos seus desejos, mas na verdade, como
crianças, se
formos filhos mais maduros e evoluídos, nós vamos também nos
preocupar com
o pai e ver o que ele precisa, o que ele quer. Neste mundo ele
quer que
tenhamos esse relacionamento de amor com ele para que também
possamos
ajudá-lo a distribuir esse conhecimento espiritual e alertar os
outros
filhos. Essa é a nossa função.



JOÃO OLIVEIRA - Mahajara, na literatura védica existem algumas
aparições
de OVNIS e é citado a existência de outros planetas e criaturas
que
existem nestes planetas. Fale um pouco sobre isso.
Maharaja Chandramukha Swami - Dentro do conceito da cosmologia
védica este
universo material, embora seja muito, muito grande, ele é
limitado e você
tem uma divisão dos planetas superiores que são chamados de
Celestiais, os
planetas intermediários, a Terra faz parte deste sistema, e os
planetas
inferiores, os planetas infernais. Nos Planetas Superiores vivem
os Devas
que são pessoas muitos qualificadas sob a influência do modo da
bondade,
pessoas com um nível de consciência muito superior. Nos Planetas
inferiores existem os Asuras pessoas sob a influência da natureza
demoníaca, influência nefasta, negativa. Nos Planetas
Intermediários, como
a Terra, é o meio termo, a paixão material. Lá embaixo a
ignorância , em
cima a bondade e aqui predomina a paixão. Então o que acontece?
Os
Planetas intermediários são sempre visados, tanto pelos Devas
quanto pelos
Asuras. Todos querem o Planeta Terra ou os outros intermediários
e há
sempre uma competição. E a literatura védica, remonta a milhões
de anos as
histórias, embora ela tenha sido compilada há cinco mil anos
(antes disso
ela foi preservada pela tradição oral). Os Puranas que contam as
histórias
mais antigas deixam claro que essa luta entre Asuras, que são os
demoníacos, com os Devas, os divinos, sempre aconteceu, e sempre
tentaram
conquistar a Terra, porque a Terra é um lugar muito positivo,
muito
agradável e cheio de recursos naturais. Então em outras eras (nós
agora
estamos numa era chamada Kali, que começou a cinco mil anos) os
semi-Deuses e os seres humanos viviam numa comunhão muito grande
e havia
um intercambio de visitas. Os seres humanos em outras eras eram
mais
qualificados e viajavam através de poderes místicos e de naves,
que não
são grosseiras, são feitas de elementos mais sutis e são chamadas
Vímanas,
a palavra mana significa mente, Vímana significa uma nave de
elemento
refinado sutil quase que mental. Então os seres humanos também
tinham
acesso aos Planetas Celestiais quando executavam atividades
piedosas e
tinham um acúmulo do que a gente chama de Punya ou Sukrti,
atividades
piedosas, eles eram premiados com visitas a Planetas Celestiais e
por sua
vez os semi-deuses visitavam a Terra para poder não só transmitir
conhecimento e uma tecnologia espiritual, mas também para se
associar com
os sábios que viviam nessa terra, da mesma forma em Planetas
inferiores
outros seres faziam visitas tentando explorar, pois sempre tem
essa
questão: ou você quer explorar ou você quer servir. Os que vivem
em
Planetas inferiores querem explorar, os que vivem nos Planetas
superiores
querem servir, proteger. Essa realidade sempre existiu. Por
exemplo,
quando Krishna veio à Terra, há cinco mil anos, a situação era
exatamente
essa. A Terra, o planeta Terra que tem uma deidade, uma Deusa que
é
chamada Bhumi, estava muita pesarosa, porque os reis naquele
momento eram
muito demoníacos e estavam fazendo tudo para destruir os recursos
da Terra
então ela se aproximou do ser mais elevado, Brahma, e juntamente
com
outros semi-Deuses, igualmente elevados ela orou, apresentou sua
condição
pesarosa e pediu ajuda. Então Brahma orou profundamente para o
senhor
Vishnu (Deus) e ele mandou a mensagem que viria à Terra, para dar
proteção
e que todos os semi-deuses deveriam nascer na Terra para ajudá-lo
na
missão de proteger as pessoas piedosas, as pessoas bem
intencionadas e
remover os elementos perturbadores, ou seja matá-los, só que a
alma é
eterna eles abandonariam o corpo que eles estavam utilizando no
momento e
seriam transferidos para Planetas infernais de acordo com a
condição
deles, então isso acorreu, essa batalha entre o bem e o mal
ocorreu com a
ajuda dos semi-deuses. Eles vieram aqui, participaram disso e até
existe
um diálogo muito famoso: o Bhagavad Gita, aconteceu durante
alguns minutos
antes dessa batalha devastadora que viria a ser chamar Batalha de
Kuruksetra.

JOÃO OLIVEIRA - Na Batalha de Kuruksetra naves foram utilizadas?
Maharaja Chandramukha Swa-mi - Armas que nós não temos acesso e
nem
podemos entender. Armas com poderes completamente sobrenaturais
como por
exemplo, a Bramastra, uma arma lançada com o poder de mantra e
que era
direcionada para uma pessoa, Bramastra significa arma espiritual
na
verdade, agora muitos semi-deuses participaram, vieram com suas
naves
né...

JOÃO OLIVEIRA - Isso é relatado nas escrituras védicas que eles
chegavam
em suas naves?
Maharaja Chandramukha Swami - Sim, tem, para nós que estudamos os
Puranas
e o Srimad Bhagavatam isso é um assunto completamente aceito e
nem é uma
coisa que nos deixa (fez um gesto com as mãos que não é nada
demais)...
por que é um assunto completamente comum, assim como nós temos
nosso
veículo não é ? Você pega seu automóvel, vem aqui em Vrajabhumi,
visitar a
gente, porque um ser superior seria menos do que nós? E não teria
o seu
veículo? Só que o veículo não igual ao nosso, não tem a mesma
tecnologia
limitada eles tem veículos muito superiores, até porque as
distâncias são
muito superiores, então, têm dezenas e centenas de histórias onde
os
sábios que viviam em outros planetas se valiam dos seus veículos
e nos
visitavam aqui.

JOÃO OLIVEIRA - Não tem uma história de um semi-deus que voando
em sua
nave e, passando em cima de uma casa, viu em cidadão com sua
mulher e
resolveu roubar a mulher desse cidadão ?
Maharaja Chandramukha Swami - Sim, existe uma coisa assim, tem
até a
história de um deles que caiu da nave porque ficou contemplando
uma
mulher. Tem isso o tempo todo. Eu me lembro agora de uma história
do sábio
Citaraketa em que ele foi visitar Sr. Shiva, ele estava
palestrando, e a
palestra era sobre a renúncia e ele estava com a esposa no colo,
Shiva é
completamente transcendental, e quando o sábio chegou na palestra
e viu a
palestra de renúncia, mas com o Sr. Shiva com a esposa no colo,
ele achou
engraçado e deu uma risadinha , mas glorificando o Sr. Shiva,
porque ele é
demais, pode palestrar com a esposa no colo. Só que a esposa
quando
observou aquele sábio rindo, ela não entendeu. Ela parou a
palestra,
amaldiçoou ele e falou : "- Você vai ter que nascer na Terra,
porque você
caçoou do meu esposo". Mas ele estava rindo de apreciação. Mas
mesmo assim
ele imediatamente pensou: "- Acho que Deus quer que eu vá à Terra
porque
eu tenho uma missão lá". Ele nem se defendeu, de tão evoluído que
ele era,
ele então se levantou, reverenciou a esposa do Sr. Shiva, chamada
Parvati
e disse: "- Mãe se esse é o seu desejo eu vou!" E a descrição diz
que ele
entrou na nave dele e veio. Simplesmente veio e cumpriu sua
missão aqui. E
isso é completamente comum para nós.

JOÃO OLIVEIRA - O que é a Garuda?
Maharaja Chandramukha Swami - A Garuda é o transportador de
Vishnu, que
tem a aparência de uma águia, rosto de águia e corpo aparente de
ser
humano, é um Deva também, um ser divino. Assim como Brahma é
transportado
por um cisne e Shiva por um touro. Todos os semi-deuses têm um
veículo.
Alguns dizem que é uma nave e a gente tem tendência de projetar a
nossa
experiência, um avião parece um pássaro e, a gente pensa, esse
pássaro
pode ser um avião, devido a nossa experiência, o nosso ponto de
vista
aqui. Mas não é isso, são seres que tem sua consciência pessoal,
porque
inclusive nas escrituras eles conversam, eles falam e dão até
instruções
espirituais.

JOÃO OLIVEIRA - Além de veículo eles são seres vivos com
consciência?
Maharaja Chandramukha Swami - Com consciência, completamente. São
seres
vivos, que transportam.

JOÃO OLIVEIRA - O Sr. diria que no decorrer da história, no
decorrer
destes cinco mil, anos ainda é possível a manifestação destes
objetos de
transporte no nosso planeta ?
Maharaja Chandramukha Swami - Completamente. O problema é que
hoje em dia
o mundo está muito conturbado e as pessoas são muito ignorantes
então se
eles aparecem tem que se camuflar porque pode acontecer de tudo.
E também
não é o momento tão importante para eles agora, é o começo deste
momento,
porque existe um subperíodo que começou há dez mil anos, muito
positivo, e
auspicioso, do ponto de vista espiritual, embora também seja o
final de
uma era muito complicada. Então é um momento em que o divino e o
demoníaco
estão muito presentes. Eles estão começando a aparecer, mas quem
sabe
daqui a algum tempo quando a natureza divina se manifestar,
predominar
mais, a presença deles vai ser mais vista. Até porque nós teremos
uma
compreensão melhor e saberemos lidar com isso. Por outro lado
também
acreditamos na presença de seres que vem de forma mal
intencionada. Nosso
Guru, Prabhupada, falou que muitos vêm de dentro da Terra e não
são
evoluídos, muito pelo contrário. E outros vêm de Planetas
superiores...
então, tem de tudo, os estudantes do assunto sabem disso...



JOÃO OLIVEIRA - E a questão do tempo, parece que o tempo para
eles não tem
muito sentido. Esses cinco mil anos podem parecer horas....
Maharaja Chandramukha Swami - Exatamente. Outro exemplo que é
dado para
isso é quando uma pessoa entra em coma, ela pode ficar em coma um
tempo
grande, mas o que acontece, é que quando isso ocorre, o karma
dela não
está definindo. Então os semi-deuses estão reunidos para decidir
algumas
coisas, algum detalhe ali, isso às vezes pode durar muito tempo
e, para os
semi-deuses pode ter sido apenas uma conversa. A dimensão é
outra. O tempo
nos Planetas celestiais é muito mais longo do que nos Planetas
intermediários como o nosso, assim como o tempo dos Planetas
infernais
também é diferente. Tem insetos que vivem horas e a sensação
deles é de
uma vida inteira.

segunda-feira, 12 de julho de 2004

TOM SOBRE TOM
Caderno CultuRal
TOM SOBRE TOM
PRÉ - ESTRÉIA DE CURTAS AGITA "CASA DE CULTURA DA ESTÁCIO" NA BARRA E CAUSA BASTANTE POLÊMICA.
Casa de Cultura Estácio de Sá
Aconteceu dia 29 de junho as 21:00 horas na "Casa de cultura da Estácio", talvez o evento mais controverso da história da Universidade Estácio de Sá, a pré - estréia dos curtas - metragens "Loucura Casual" e "E a vida Continua" de Marcelo Alves e Marcelo Muller; Os curtas faz diversas críticas sobre a sociedade moderna tratando de temas como religião, suicídio, amizade e diversas formas de preconceito; Os filmes causaram polêmica, deixando os presentes no evento surpresos, mesma surpresa que todos tiveram quando entraram no teatro da casa e deram de cara com uma suástica gigante que estava colocada na decoração; E no final do evento quando tudo parecia voltar ao normal, um integrante da Banda Sensorial Estéreo, indignado por ter seu som cortado antes mesmo que terminasse a música que encerraria o evento, mostra as nádegas para os poucos que ainda terminavam de assistir a apresentação; Para explicar melhor o evento e sua ideologia conversamos com um dos diretores dos filmes, Marcelo Alves que tem 20 anos e é formado em Cinema e Vídeo pela Universidade Estácio de Sá.


TOM SOBRE TOM - De onde surgiu a idéia de fazer um evento muito diferente, com uma temática pouco abordada?

Marcelo Alves - É interessante falar a respeito disso, eu pensei em uma pré - estréia punk, diferente, alternativa e o local?, não tinha idéia de onde poderia ser, pensei em lugares que adotem esse estilo como alguns bares e casas de espetáculos na Zona Sul. Porém pensei na Casa de Cultura por ser da Estácio e ser bem mais cômodo, só que a Casa de Cultura é um lugar muito bonitinho, ai pensei, "temos que quebrar a padronização de Casa de Cultura, mudar seu estilo"; Conseguimos, mudamos a decoração do teatro da Casa, demos um tom dark a casa; a produção do evento é de André Gonçalves e Danielle Tellez.
Conseguimos quebrar um padrão, até uma gigantesca suástica foi colocada na decoração, vale a pena dizer que a Suástica foi adotada por Hitler como símbolo nazista, mas para quem tem conhecimento da cultura oriental sabe que a suástica significa evolução, Hitler inverteu o símbolo dando o sentido da involução.

TOM SOBRE TOM - O evento se auto enriqueceu com o som da banda "Sensorial Estéreo" e um papo sobre "mensagem subliminar", de quem foi a idéia?

Marcelo Alves - É verdade, a idéia do bate papo sobre "mensagem subliminar" foi minha, algumas pessoas foram contra mas mantive minha idéia, convidamos um militante da Uff, estudante do 8o período de historia, membro da federação Anarquista do Rio de Janeiro "Rafael", um cara altamente preocupado com a questão social, começou fazendo Comunicação Social com vertente em publicidade na própria Uff, porém segundo ele, viu que a profissão não tem preocupação com o "social" que a publicidade é a profissão mais agressiva e capitalista; Rafael é um cara super inteligente e muito preocupado com questões sociais. Pretendo produzir um evento com foco no tema "subliminar", vale ressaltar que ninguém que participou e organizou o evento é radical com nenhum tema., não quero me esticar para dar a definição de Anarquista.

TOM SOBRE TOM - E o som de "Sensorial Estéreo"?

Marcelo Alves - Ter o "Sensorial Estéreo" foi de consenso geral, gosto muito dessa banda, eles fizeram a ótima trilha sonora do "Loucura Casual"; O som deles é algo sublime, bem diferente do convencional, dificilmente vemos uma banda com violinista e um baterista de pé. Se vocês puderem escutar essa banda, vale muito a pena. Eles não estão nem um pouco preocupado em ser pop Stars, sei que eles igual a todos nós correm atrás de grana e fazer arte sem grana é muito difícil.

TOM SOBRE TOM - Sobre os filmes, fale um pouco sobre a história e temática dos curtas?

Marcelo Alves - O "Loucura Casual" é proibido para menores de 21 anos.(to brincando);
O filme conta a história de dois jovens que se conhecem através do anúncio de um jornal, ambos se dizem almas gêmeas e intercalam suas frustrações com o mundo contemporâneo; O filme é uma metáfora de nós, do eu, da insatisfação particular e conjunta do ser.
No filme, fala - se muito, porém não disfarça a solidão presente nos seres, em todos nós.





TOM SOBRE TOM - E o "E a vida Continua" ?

Marcelo Alves - É um romance, entre um playboy loirinho com uma menina paraplégica e negra. O filme é uma visão ampla sobre o preconceito, é o nosso primeiro filme Pop. Um romance diferente.

TOM SOBRE TOM - Pop, porque pop?

Marcelo Alves - Tem músicas do Roxette, a sua própria linguagem é todo voltado para um romance, vale a pena conferir.
A trilha sonora dele é muito rica, tem até Miles Davis.

TOM SOBRE TOM - Fazer esse tipo de evento, não é querer ser Pop pelo caminho inverso?

Marcelo Alves - Pode ser, ser pop de uma maneira inteligente vale a pena, tipo Andy Wahol (criador da Pop art), Los Hermanos, Michael Moore. O negócio é não fazer estilo. Ser realmente o que você é, e não se vender por pouco, sempre manter suas origens.

TOM SOBRE TOM - Então vale a pena ser alternativo, diferente?

Marcelo Alves - Tem uma frase do Cazuza na música "O tempo não para" que diz muito sobre isso: "Cansado de correr na direção contrária, sem pódio de chegada nem beijo de namorada.", mas por enquanto não cansei de ir contra a essa Indústria Cultural, essa Indústria religiosa; Tento não assistir filmes americanos no Cinema para não alimentar o carrasco do nosso Cinema, até vejo mais algumas exceções, nada de superproduções idiotizadas.
Acredito que a diferença é a essência dos seres, no fundo somos muito diferentes, porém com a padronização da cultura, da arte, da vida, de estilo, fomos nos transformando em pessoas muito iguais, é triste saber que as pessoas não estão pensando por elas.
Elas vão assistir Homem Aranha, porque Homem Aranha todo mundo vai ver, porque a "Indústria Cultural" impõe que as coisas são boas, a verdadeira arte causa estranhamento, estão roubando nossas mentes.
Tente ir assistir a peça de "Ricardo Blat" no Centro Cultural Banco do Brasil, tenho certeza que as pessoas não vão gostar, tente ouvir uma música de 1920, ou uma ópera.
Tente comparar os filmes, as músicas, a arte virou consumo padronizado, tudo é muito igual, infelizmente não só a arte, é só olhar também ao seu redor e como todo mundo se veste muito igual, pensa muito igual, fala muito igual, repito mais uma vez, estamos perdendo nossa particularidade.
Vale muito a pena tentar e conseguir corroer o sistema.

TOM SOBRE TOM - Os filmes foram inspirados em algum fato?

Marcelo Alves - Sim, na minha própria vida, em nossas vidas, peguei um pouco de cada pessoa, uma partícula de alma existente em cada um de nós, pode ter certeza que tem um pouco de cada um que assiste o filme, é um maniqueísmo existente em cada ser.






TOM SOBRE TOM - E sobre as polêmicas? Um integrante do "Sensorial Estéreo" mostrou as nádegas para a platéia, o que acha disso?

Marcelo Alves - Eu não vi essa bunda, a casa já estava vazia, faltaram com respeito com o som deles, cortaram a banda antes de terminarem a última música alegando que o evento estourou o tempo, acho que foi um sinal de protesto, não acho legal as pessoas que ficaram para assistir a banda ver uma bunda do nada, ainda mais porque tinha um público um pouco mais velho. Acho que o protesto foi válido mas se eles pudessem protestar de outro jeito, seria melhor ainda.

TOM SOBRE TOM - O que você destaca como a coisa mais importante do evento?

Marcelo Alves - Duas coisas, uma o público reagiu muito bem com "E a vida continua" sei que é um filme muito interessante e outra a reação das pessoas para mim quando vêem no "Loucura Casual" a imagem de Jesus Cristo sendo queimada pela protagonista do filme, acho que deve ser uma das cenas mais contestadoras da história do curta metragem no Brasil.

Pauta - Charles Aston / Repórter - Fernando Freitas

PROJETO REVISTA 2o periodo
ESTOU DEVENDO MINHA AGENDA PRAQUI DESDE O ULTIMO 29 DE JUNHO.

Dia 29 houve apresentação do Sensiroal Estereo na Casa de Cultura da Estácio de Sá na Barra da Tijuca.

Abrimos o evento com um improviso. Depois rolou um curta do Marcelo Alves, depois tocamos de novo, depois o Loucura Casual, depois o E a Vida Continua, depois tocamos de novo depois, o fim.

Estamos com um novo formato na banda. Estou tocando só surdo, caixa e condução. Isso me dá mais liberdade pra explorar percussão e deixo de ficar no esquema de set de bateria normal. Toco de pé.
O improviso foi bem jazistico. Com vassourinha, foi bem 'novo'.
Na segunda apresentação, tocamos algumas de nossas musicas, Tempo Escuro e Fortaleza da Solidão. Quanro íamos tocar a 'do Filme', desligaram nosso som.
O evento estava programado para de nove às onde da noite. Começou às nove e quinze e, três pras onze desligaram o audio. Por um momento ficamos nos olhando do palco e, num súbito, eu ataquei as baquetas na bateria, saí chutando o que via pela frente e saí do palco. Só ouvia o barulho das coisas sendo tiradas de seus lugares enquanto saía de costas para o palco (com o resto da abnda ainda nele).
Só posso dizer que rolou maior bafafá pois um dos músicos montrou a bunda. O resto é o resto.

xxxxxxxx

Nesse fim de semana, depois do trampo, fui à festa do Claudio, amigo lá da área. Rolou cerva e bjork, bob log, mc5, Dillinger Scape, Doors etc. Lá pela uma da manhã, fomos expulsos da casa dele pela esposa, que desligou o som. Com certa razão pois o cara tem uma filha de dois meses de nascida.
Fomos para a casa do Tiago, ao lado. Lá pelas duas, quando nosso anfitrião começou a perder a linha, fomos embora (eu, felix, frank e Sales).
Indo pra casa andando, tive que empunhar meu canivete, por precaução.
Já quase em casa, um incidente: um cara armado mandava um carro dar ré:

_ Ainda acha que está certo? Ele perguntava pro motorista.
(n. do a.: quem está certo é sempre o que está armado)

O carro deu ré mas, mesmo assim um tiro foi disparado.Resultado: tive que dar ré também. Me escondi num terreno baldio ao lado de uma casa de material de construção.

Sábado fiquei de me encontrar com o pessoal do CLAVE na Fabio Luz às dez mas não aguentei levantar tão cedo. Daqui à pouco ligo pro rafa pre ver o que rolou.

Tinha marcado com o Edu Mansur na quadra da Portela pra pegar o CD sobre o KURT _ A VIAGEM AO NIRVANA. Depois explico isso melhor.

Após ( e embaixo do maior toró), ensaio do Mother Joans no Kaoma.
O ensaio foi muito bom. O Dony (como o novo baixista - o paulista - prefere ser chamado) deu um gás novo à banda.

Daí eles me convenceram a ir no show do Mukeka de Rato. Zoei o bastante.
Domingo acordamos lá pela uma da tarde, assistimos um filme do Mazzaropi e, casa.
Copiei os discos do Thee Butchers Orquestra, que o Edio me emprestou, comecei a ler No Caminho de Swan, do Proust e adormeci... na real demorei bastante pra dormir pois coloquei um disco do Tom Waits, que me deixou um tanto quanto 'ligado' pra dormir. Tive de abaixar o volume e, aí sim.

ESFORÇO EXIGIDO


ME TRATAM COMO SE INVADISSE SEU TERRITORIO
TENHO QUE PAGAR PARA OCUPAR UM LUGAR NO ESPAÇO
SE NÃO, SOU FORA DA LEI
TENHO QUE VIVER FUGINDO OU SENDO ESTORQUIDO

NÃO HÁ EMPREGO
TENDO QUE ME VIRAR
TENTO LEVAR UMA VIDA JUSTA
MAS ESTOU DENTRO DO TERRITÓRIO DO GOVERNO
NÃO HÁ LIBERDADE
E AINDA TENHO QUE SORRIR E VOTAR

ESSA É A CAUSA DA VIOLENCIA
O SER HUMANO É VIOLENTADO E
COMETE CRIMES CONTRA O SEMELHANTE

POR CULPA DO ESTADO SE SOFRE DIARIAMENTE

E EU, QUE PENSEI QUE IRIA MUDAR O MUNDO
ESTOU DENTRO DO FURACÃO
Todo o processo deve ser executado

Preciso aniquilar
Ouvir e executar
É preciso dentrinchar

o sentimento daqueles que sentem também é meu

devo fazer algo e
algo de fora me impede
devo insistir
essa é a nova meta
MUITO IMPORTANTE FICA A SEGUNDO PLANO NAS ENTRELINHAS MAS É TANTO OU MAIS DO QUE ESTÁ ACIMA


VENTO DO LESTE - Godard - Glauber - Dziga Vertov

o mais bacana é a crítica do filme à própria crítica do filme (autocrítica
com sua crítica), criando uma militância artística no qual a militância e a
arte entra em um casamento de impasse, pois não se ignora de qual classe
social milita o artista. há uma ótima discordãncia entre a instância
narradora e o diretor (por meio de sua voz) logo no início do filme e esse
conflito é mantido ao longo do restante

há momentos impagáveis (uma cena na qual, para se decretar a morte da arte
burguesa, mostra-se uma leitora de Proust, livro na mão, sendo
simbólicamente morta)


mas há um vácuo sobre o que ainda pretendo escrever: o filme questiona a
representação burguesa, questiona seus próprios procedimentos, mas omite
dois aspectos que, a rigor, estão diretamente ligados ao sistema econômico:
para quem se faz o filme, para quem se exibe? Ou seja: quem financia, como
foi financiado, para quem exibirá e onde exibirá? deixou assim de se
enquadrar dentro do sistema burguês de produção e irradiação.

...........

Mulheres estão se vingando do homem branco, ficando com negros e com mulheres.
Mas não é só na vagina que tem cheiro de vagina. O meu suvaco, p.ex., o tem.

...........

Conversa com Lucas Jerzy na Infancinéfilos

o inconsciente soh existe a partir do recalque e seu
retorno, e enquanto estrutura de linguagem na relacao
com um objeto perdido. existe isso coletivamente?

edp: Cada um na sua, mas no fim das contas há um mesmo sentimento de perda do objeto
que todos têem.


claro que ha algo de recalcado e de perdido no
coletivo. eh a psicologia das massas. mas eh melhor
chamarmos precisamente de linguagem, cultura,
civilizacao, isso sim. e deixemos o inconsciente para
os neuroticos, individual e privativamente.

edp: o ser humano enquanto parte de uma coletividade é passível de perdas,
pois nem tudo que ele sinta e queira poderá ser suprido. Por isso é preciso,
de alguma outra maneira, realizar o que ficou impossibilitado. o ser chega
numa sociedade e tem que aprender seus códigos. Se não aprende de acordo com
a maioria ou como se deveria ...


Que sua recusa pode ser a
> recusa aos instintos inerentes ao humano;

o homem eh o unico animal em cujo os instintos sao
exiguos, inexistentes e em geral inoperante. tudo o
que o organismo dessa especie faz, ele tem de aprender
vicariamente.
edp: diferente dos animais, que são 'puro' instinto? o ser humano é 'só'
racional? não reage ao ambiente (também)organicamente???


instinto, darwinianamente definido o homem nao tem
nao. no lugar dele temos lobo frontal, polegar
oponente, postura ereta e membros livres, linguagem,
cultura, etc.

edp: realmente esse homem é novo pra mim. Parecido com qqr andróide dos
filmes de ficçao.


no lugar dele, em uma palavra, temos a pulsao. o
instinto eh a relacao inata dos membros da especie com
o seu meio. o homem nao tem meio especifico, nem
relacao com ele.

edp: o meio do homem é o planeta(por enquanto). Um animal pode ser deslocado
de ambiente e se adaptar. Um homem pode ser deslocado de 'seu local de
costume' e não se adaptar...

isso estrita, clara e darwinianamente
definido. e so far, darwin foi o unico que nos deu uma
definicao precisa e nao-mentalista de instinto.

edp: que instinto???? aquele dos animais?


pulsao eh a relacao do sujeito com seu outro enquanto
objeto, e do outro com o sujeito enquanto objeto. uma
relacao de dois, pela linguagem.

edp: porque o ser humano se sente dono de algo. Ele precisa disso. E os
animais (irracionais) também tem 'necessidade' de possuir algo.


freud estava certissimo. somos desamparados - nao
temos sequer o amparo automatamente garantido do
instinto.

> A humanidade deve (re)conhecer seus instintos, seus
> princípios amorais, para conhecer e entender um
> pouco mais do mundo e do ser ao seu lado. Ao
> contrário, recusamos a voz do instinto, pois esse
> Deus, essa voz interior é Imperfeita. Difere do que
> nos ensinaram no catecismo...

quer dizer que quem eh criado em familia ateia nao tem
recalque nao?

edp: Deus aqui foi só uma metáfora para o Deus que, nos ensinam na igreja, é
Supremo e está dentro de cada um. Quem é criado em familia atéia também tem
que obedecer o que os pais mandam e, portanto, são reprimidos.

> Só existe o aqui e o agora.

soh pq o aqui-agora eh antes voltando no depois.
retorninho do recalcadinho.

edp: sendo assim não existimos. Somos uma ilusão e alimentamos isso, mas não
existe.


mas eu nao sofro mais disso. eu agora sei. no
gaio-saber, que eh saber de nada, que nem bolinho de
chuva.

edp: é um bom começo.


Se não vasculharmos
> nosso interior, como se entenderá o Ser acima do céu
> azul?

interior? meu caro, isso nao existe.

edp: interior enquanto algo que se é desde que se está sendo gerado. O eu
individual, antes de me educarem e irem me moldando até eu poder fazer
minhas escolhas...


o inconsciente eh uma superficie. a libido eh o unico
orgao nao-fisiologico e que se extende para alem e
para fora do corpo, etc.

edp: isso é algo místico? o q vem de fora que passa por dentro e está dentro
e fora, ao mesmo tempo? a existencia em si? o que o nosso corpo é só um
momento de junção material e energia concentrada?

nao ha nada dentro da pele que nao esteja fora, salvo
as viceras.

edp: e onde fica o raciocínio nisso? à parte ou só uma consequencia disso?
quem vem antes?


eu nao pretendo fazer auto-necropsia, e nao recomendo.
basta ver como falo, e como o falo em mim, pra saber
um pouquinho do que se nao-eh.

ou, como disse Paul Valery: "O mais profundo eh a
pele..."


O> MITOS DE HOLLYWOOD
>
> Como a teoria do inconsciente coletivo de C. G. Jung
> aprimorou a psicologia hollywoodiana.

esse eh o erro, ser uma teoria. o o nazi ainda insiste
em que nao eh uma teoria, mas fatos.

fatos eh a psicanalise. nas palavras do proprio freud,
nunca uma teoria, senao uma teoria da clinica - como
nao existe teoria cirurgica, mas uma teoria de como se
maneja o bisturi AO MANEJA-LO!

tsc
tsc
tsc

jung nunca notou que o que eh sexual nao eh o corpo,
mas a linguagem que o estupra cotidianamente. eh a
lingua e a linguagem que sao sexo - a pica, o pau, o
caralho, a buceta, nunca o sao.


>
> O crítico de cinema da The New Yorker, Anthony Lane,
> cita coincidências impressionantes entre o filme
> Nova York Sitiada, dirigido por Edward Zwick, em
> 1998, com Bruce Willis e Denzel Washington, e a
> tragédia de 11 de setembro passado, em Nova York.

tb ha coincidencias entre o delirio de Schreber e a
ascencao nazi na alemanha.

freud nem a psicanalise nunca negaram que algo na
cultura se precipita como verdadeiros atos-falhos
coletivos - retorno do recalcado em massa

tanto que ele dedica um livro inteirinho a isso:
Psicologia das Massas e Analise do Eu

tanto que lacan dedica seu mais brilhante seminario a
isso: o 17, O Avesso Da Psicanalise.

dai a dizer que ha um inconsciente coletivo tah foda!
a rigor, soh existe inconsciente dentro do setting
analitico. eu nunca recebi uma populacao cultural
inteira no divan, nem conheco ninguem que o tenha
feito, e alias, nem jung. o inconsciente eh uma
CRIACAO do analista para permitir que a analise
aconteca: uma criacao a partir de onde emerge a
transferencia de um lado e a abstinencia de outro.

freud nunca descobriu o inconsciente - ele
declaradamente inventou: eh um CONCEITO! ninguem nunca
viu. e diz ele: que nem o conceito de energia em
eisenberg. vc jah viu energia, meu caro? nem eu. mas
se eu meter dedo na tomada da choque - logo, INVENTO
que tinha algo ali em potencia de fazer trabalho.

mas o nazi suico acha que descobriu alguma coisa -
quando a invencao dele eh inconsciente e inutil. e a
de freud eh consistente, necessaria, e pragmaticamente
fundamental para permitir tratar neuroticos e
psicoticos alike.


> Contemos a história do começo. Jung sustenta que,
> por baixo do inconsciente pessoal,

esse POR BAIXO eh que me mata.

logo o nazi suico que arroga conhecer mistica e
alquimia, esqueceu da maxima fundamental: o que estah
em cima eh como o que estah em baixo.

nao ha em baixo nem em cima. a rigor, nao ha
consciencia senao lixo psiquico do inconsciente -
resquicio do edipo que chamamos de supereu, e alias
apenas parte do supereu (jah que o supereu eh em maior
parte perverso e como tal tb recalcado).

na ha nada por baixo do inconsciente freudiano, como
nao ha nada por cima. soh ha ele, e uma coisa fora
dele: o Real, que o causa por ausencia.


> "monomito" - termo que ele declara ter tirado do
> Finnegans Wake, de James Joyce, sobre o qual
> publicara seu primeiro livro, A Skeleton Key to
> Finnegans Wake. Evidentemente, embora inspirada em
> Joyce, a idéia fundamental de O Herói de Mil Faces,
> o monomito, tem tudo a ver com o inconsciente
> coletivo de Jung.
>

outra barbarie, agora interna. Jung achava joyce um
lixo, e pior: doido de hospicio. nao conseguia
enxergar que joyce nao era doido justamente pq
escrevia suas maluquices.

duplamente preconceituoso: estetica e clinicamente.

mas campbell faz que nao sabe desse fato obvio...


por ora, eh soh,


contra a ignorancia, sempre,

insistindo no que existe (e incitando o que excita),

2
> edp: diferente dos animais, que são 'puro' instinto?
> o ser humano é 'só'
> racional? não reage ao ambiente
> (também)organicamente???
>

nao. entre o organico e o ambiente, no homem, tem
sempre a linguagem no meio. nao ha relacao do homem
com o meio: a linguagem fica entre ambos.

dai nao haver instinto, mas tb nao ha razao. ha um
fato de linguagem: a pulsao e o inconsciente.

> edp: o meio do homem é o planeta(por enquanto).

darwinianamente nao eh um meio. um meio eh
especie-especifico SEMPRE! ponha um urubu no alasca e
ele morrerah, ou um chimpanzeh no saara e ele
morrerah. o homem ocupa o planeta inteiro pq nao eh
especificamente adaptado a nenhum meio. sua adaptacao
nao eh genetica (instintinto) mas pelo fato de que
entre ele e o meio tem uma terceira coisa: a cultura,
a linguagem, etc.

isso eh um fato eVIDEnte. darwin jah suspteitava,
freud formulou, skinner assina em baixo, e qualquer
outro ser com o minimo de lucidez pode notar isso.


Um
> animal pode ser deslocado
> de ambiente e se adaptar.

atraves de selecao de sepas e mortandade populacional.
...

vah ler mais darwin, freud, skinner, vigotsky, os
gestaltistas classicos, piaget, wallon, etc. antes de
falar besteira.

se eu me mudar pro nepal nao terei de ter 3 geracoes
de filhos com metade deles morrendo ateh me adaptar.
basta comprar roupas de frio, nao eh mesmo? nao existe
instinto de fazer roupa de frio, nem de compra-las,
baby. eh a cultura mediando o homem e a natureza. a
unica especie que tem isso ateh agora. duvido que
surja outra.


Um homem pode ser
> deslocado de 'seu local de
> costume' e não se adaptar...
>

claro: se ele for oligofrenico, autista ou
simplesmente, no caso acima, nao tiver dinheiro para
comprar um casaco. em todas as opcoes, a cultura estah
no cerne.

> isso estrita, clara e darwinianamente
> definido. e so far, darwin foi o unico que nos deu
> uma
> definicao precisa e nao-mentalista de instinto.
>
> edp: que instinto???? aquele dos animais?

o unico que foi definido cientificamente. instinto eh
SOH dos animais que nao sao de linguagem. quando ha
linguagem, nao ha instinto por uma questao adaptativa:
ele nao eh necessario, ou eh ausente e por isso surge
algo que o substitui, a linguagem.

> edp: sendo assim não existimos. Somos uma ilusão e
> alimentamos isso, mas não
> existe.

exatamente! e a funcao da analise eh fazer essa ilusao
cair: fazer o sujeito saber que ele nao eh nada, a
parte de ter em si todos os sonhos do mundo. chama-se
destituicao subjetiva.


> edp: e onde fica o raciocínio nisso?

na linguagem. a consciencia soh existe enquanto fato
social.

pra raciocinar matetmaticamente em ponho num papel,
uso calculadora, etc. tudo isso eh externo. se faco
conta "de cabeca" eh apenas uma aparencia de
internalidade. na minha "cabeca" continua a haver
linguagem, que eh fora de mim e antes de mim...


Lucas "Handel" Jerzy



Biossegurança e Precaução

por Ventura Barbeiro

O prefácio do Protocolo de Cartagena sobre Biossegurança(1) afirma que a falta de conhecimento científico não deve ser usado com a finalidade postergar medidas que visem a impedir a perda de biodiversidade.

Em toda situação em que exista um possível risco para o meio ambiente ou para a saúde humana e animal, deve haver uma abrangente avaliação dos impactos da tecnologia baseada no “Princípio de Precaução” (2).

A adoção desse princípio é essencial para se evitar surpresas desagradáveis, como vem acontecendo no caso da soja transgênica “Roundup Ready”. Genes desconhecidos e alterações inesperadas no metabolismo da planta estão entre as descobertas preocupantes que surgem a cada dia, enquanto poderiam ter sido evitadas com uma detalhada avaliação de risco. Essa é a importância de uma Lei de Biossegurança que proteja a saúde do consumidor e o equilíbrio do meio ambiente.
VEJA QUANTA COISA JÁ SAIU ERRADO, COM OS "TRANSGÊNICOS SEGUROS"

Aprovada para plantio comercial nos EUA em 1994, empregando o princípio da “equivalência substancial”(3) , a primeira colheita da soja transgênica foi em 1996. Em 1998, pesquisadores encontraram(4) níveis inferiores de fitoestrogênios ou isoflavóides (compostos químicos com estrutura similar ao hormônio humano estrogênio) na soja transgênica. Acredita-se que esses fitoestrogênios sejam importantes do ponto de vista clínico(5) . Em 1999, foi encontrada uma importante alteração no metabolismo dessa soja transgênica(6) , a qual pode ser a causa do rachamento do caule da planta em situação de calor excessivo.

Em 2000, foi descoberto(7,8) que fragmentos desconhecidos de DNA foram adicionados acidentalmente a essa soja. Em 2002, explicações adicionais(9) demonstraram que parte desse fragmento é DNA de soja mesmo, porém rearranjado. A empresa Monsanto afirmou(10) que esses fragmentos não estavam ativos, só que mais tarde foi descoberto exatamente o contrário(11,12).

O atual estágio das tecnologias utilizadas na obtenção de transgênicos podem ser caracterizadas como sem previsibilidade; sem controle dos sítios alvos; sem controle do destino do transgene ou partes dele; sem controle nas mudanças de expressão gênica; sem controle dos transgenes no ecossistema e de difícil reproducibilidade(13). Não apenas a soja transgênica causou espanto com os seus genes desconhecidos inseridos acidentalmente, mas também as tecnologias Syngenta Bt11(14) , Syngenta Bt106(15) e o Monsanto Mon810(16) contêm essas surpresas desagradáveis.

A DESCOBERTA DOS MÉDICOS ITALIANOS

Uma equipe de médicos italianos descobriu, em 2002, que ratos alimentados com soja transgênica RR apresentaram alterações nas estruturas internas das células do figado(17) e alterações quantitativas em alguns componentes do pâncreas(18) . Esses estudos são preliminares, porém indicam uma hiperatividade hepática, exigindo mais pesquisas para se compreender melhor o que causa essas modificações. Não houve alteração de peso ou desenvolvimento das cobaias ao longo dos oito meses do experimento, mas essas alterações no figado e pâncreas são preocupantes, pois seus efeitos a longo prazo são desconhecidos.

O QUE MAIS PODE DAR ERRADO?

Uma avaliação(19) dos primeiros oito anos das culturas transgênicas nos EUA demonstrou um aumento expressivo no consumo de agrotóxicos, devido à combinação da redução do preço dos produtos químicos com o surgimento das superervas daninhas(20) , que exigem mais agrotóxicos. O que mais pode dar de errado com a soja transgênica Roundup Ready?

O Senado brasileiro discute a Lei Nacional de Biossegurança, com uma grande pressão para a liberação dos transgênicos sem a avaliação feita pelos orgãos competentes dos Ministérios da Saúde, Meio Ambiente e Agricultura. O Senado Federal está prestes a votar a matéria(21) . Um forte embate está sendo travado entre senadores que defendem a liberação dos transgênicos sem nenhuma avaliação detalhada de impacto ambiental e de saúde humana e animal, enquanto outros, muito preocupados com os consumidores e com o meio ambiente, defendem regras que permitem uma avaliação mais abrangente e multidiciplinar para a liberação desses organismos na natureza.

Participe desse debate, dê sua opinião. O Senado dispõe do telefone gratuito 0800-612211 e da página http://www1.senado.gov.br/SPO/ para receber opiniões e sugestões dos cidadãos.

Se liberados, esses organismos transgênicos irão para o seu prato. Não aceite ser a cobaia desse grande experimento genético e faça a sua parte. Exija uma avaliação que afaste riscos para o meio ambiente e para a sua saúde, baseada no “Principio de Precaução”.


O autor, Ventura Barbeiro, é engenheiro agrônomo pela ESALQ-USP, conheceu a soja transgênica em 1990 ainda nos laboratórios do Life Science Research Center da Monsanto em St. Louis, EUA. Desde janeiro desse ano atua no Greenpeace.

email: ventura.barbeiro@terra.com.br

Copyleft Relatório Alfa (www.relatorioalfa.com.br) .
É livre a reprodução para fins não comerciais, desde que o autor e a fonte sejam citados e esta nota seja incluída, com um link ativo para o site Relatório Alfa.


http://www.biodiv.org/convention/articles.asp
http://www.greenpeace.org.br/transgenicos/pdf/principio_precaucao.pdf
see Application to the UK Advisory Committee on Novel Foods and Processes for Review of the Safety of Glyphosate Tolerant Soybeans by the Agricultural Group of Monsanto Company, July 27 1994.
Lappé, M.A., Bailey, E.B., Childress, C.C. & Setchell, K.D.R. (1998/1999), Alterations in Clinically Important Phytoestrogens in Genetically Modified, Herbicide-Tolerant Soybeans, Journal of Medicinal Food, 1:241-245.
http://www.inca.gov.br/atualidades/ano10_1/soja.html
Coghlan, A. (1999) Splitting headache. Monsanto’s modified soya beans are cracking up in the heat. New Scientist, 20 Nov. 1999, p. 25.
Monsanto (2000) Dossier containing molecular analysis of Roundup Ready soya:
http://www.foodstandards.gov.uk/pdf_files/acnfp/dossier.pdf, available at
http://www.foodstandards.gov.uk/committees/acnfp/acnfpassessments.htm
Windels, P., Taverniers, I. Depicker, A. Van Bockstaele, E. & De Loose, M. (2001) Characterisation of the Roundup Ready soybean insert. European Food Research Technology, 213, 107-112.
Monsanto (2002a) DNA Sequences Flanking the 3' End of the Functional Insert of Roundup Ready Soybean Event 40-3-2 and Transcript Analysis of the Sequence Flanking the 3' End of the Functional Insert in Roundup Ready Soybean Event 40-3-2. Available at: http://www.food.gov.uk/multimedia/webpage/72699.
Dossier from Monsanto containing molecular analysis of RR soya: http://archive.food.gov.uk/pdf_files/acnfp/summary.pdf http://archive.food.gov.uk/pdf_files/acnfp/dossier.pdf. Available at: http://www.foodstandards.gov.uk/science/ouradvisors/novelfood/assess/assess-uk/60500/
Monsanto (2002b) Transcript Analysis of the Sequence Flanking the 3' End of the Functional Insert in Roundup Ready Soybean Event 40-3-2. Available at:
http://www.food.gov.uk/multimedia/webpage/72699.
Monsanto (2002c) Additional characterisation and safety assessment of the DNA sequence flanking the 3’ end of the functional insert of Roundup Ready Soybean event 40-3-2. http://www.foodstandards.gov.uk/multimedia/pdfs/RRSsafetysummary.pdf
Guerra, P. M., Nodari, R. O. (2002) Apostila de Biotecnologia – Parte 3 – Organismos geneticamente modificados. Laboratório de Fisiologia do Desenvolvimento e Genética Vegetal, Depto. Fitotecnia, CCA-UFSC. http://www.cca.ufsc.br/dfito/labs/lfdgv/OrganisgenetParte3.doc
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Hernández, M., Pla, M., Esteve, T., Prat, S., Puigdomènech, P. & Ferrando. A. (2003) A specific real-time quantitative PCR detection system for event MON810 in maize YieldGard ® based on the3-transgene integration. Transgenic Research 12: 179–189.
Malatesta, M., Caporaloni, C., Gavaudan, S., Rocchi, M.B.L., Serafini, S., Tiberi, C., Gazzanelli, G. (2002) Ultrastructural morphometrical and immunocytochemical analyses of hepatocyte nuclei from mice fed on genetically modified soybean. Cell Structure and Function, 27, 173-180.
Malatesta, M., Biggiogera, M., Manuali, E., Rocchi, M.B.L., Baldelli, B. & Gazzanelli, G. (2003) Fine structural analyses of pancreatic acinar cell nuclei from mice fed on genetically modified soybean. European Journal of Histochemistry, 47, 385-388.
Benbrook, C. M. Impacts of Genetically Engineered Crops on Pesticide Use in the United States: The first eight years. AgBioTech InfoNet Technical Paper Number 6 http://www.biotech-info.net/technicalpaper6.html
http://www.greenpeace.org.br/transgenicos/pdf/super_ervas.pdf
Jornal do Senado, 06 de julho de 2004.







axiomas estéticos = abstração expressiva

O expressionismo alemão é uma cultura de crise, reflexo do profundo desalento espiritual gestado nos campos de batalha da Primeira Guerra Mundial. A face da morte, estampada nos rostos de milhões de jovens precocemente ceifados, despertou os sentimentos de terror, misticismo e magia; o renascimento do horror , fim de todas as ilusões de poder; apoteose do indistinto e do vago.
Expressões vagas, forjam-se cadeias de palavras combinadas ao acaso, procura-se o significado "metafísico" das palavras, inventam-se alegorias místicas, desprovidas de lógica.
Luta, ao mesmo tempo, contra o naturalismo e seu objetivo mesquinho: fotografar a natureza ou a vida cotidiana.
O expressionista já não vê, mas tem "visões". Ou seja, a realidade não é mais contemplada segundo os dados dos sentidos, mas o homem consegue tão somente projetar "visões" subjetivas e interiorizantes do Real.
O artista expressionista procurar, em lugar de um efeito passageiro, o significado eterno dos fatos e objetos. Devemos - dizem os expressionistas - nos desligar da natureza e tentar resgatar a "expressão mais expressiva de um objeto".
Na dinâmica do expressionismo, o homem deixa de ser um elemento ligado a uma moral, a uma obrigação social, a uma família, a uma moral religiosa, a uma sociedade. A imagem do mundo se reflete no expressionista em sua pureza primitiva, a realidade é subjetiva e existe apenas em nós.
É fundamental ressaltar a "atitude da vontade construtiva", do eu que molda o real.
A energia vital presente no inorgânico, o estado de animação suspensa em que se encontram os objetos, são o caminho para atingir a essência de seu "absoluto", que independe do estabelecimento de quaisquer relações transitórias.

::::::::::::::::::::::

Escritório do Dr. Caligari, de Wiene: O pendor para contrastes violentos, bem como a nostalgia do claro-escuro e das sombras, da noite indistinta, da névoa sinistra; abstração radical da realidade "sensível"; evocações fúnebres, de horrores, de uma atmosfera de pesadelo.
As perturbadoras experiências do roteirista Carl Mayer com psiquiatras durante a Guerra, e o testemunho real de Hans Janowitz, o outro roteirista, a respeito de um assassinato não resolvido de uma moça numa Feira de Variedades.
Crítica mais ou menos realista do absurdo de qualquer autoridade social.
Elucubrações obscuras de uma mente doente
Fantasmagoria: expressionista
O que interessa ao expressionista não é a manifestação "realista" particular de um evento, mas o caráter eterno deste evento, que somente a abstração do sensível pode descobrir.
Caligari estava obcecado com o trabalho de um místico italiano do século XVIII com o mesmo nome, com o objetivo de provar que a mente de um sonâmbulo poderia ser controlada por outros. A tirania de Caligari se reafirma através das visões subjetivas de Francis, que, rejeitando o discurso da normalidade naturalista do encadeamento lógico, revela o absoluto cruel e desumano do médico.
As linhas e planos tortuosos, oblíquos e abruptos do cenário provocam no público um efeito muito diverso do que o que seria logrado por uma composição visual harmônica.
A visão de perspectivas falseadas e imprevisíveis, de formas distorcidas, e a consciente intenção de evitar linhas verticais e horizontais, despertam no espectador os sentimentos de insegurança, inquietação e desconforto.
As imagens de Caligari são como reflexos em espelhos deformantes. Todas as expectativas são invertidas. A fotografia, assumida por Willy Rameister, de um claro/escuro de contrastes violentos, acentua ainda mais esse processo de inversão. O abstração solipsista da mente expressionista é retratada por uma cenografia de perspectivas inusitadas e inviesadas, fortemente anti-realistas, numa intenção estética onírica e sobrenatural.
As personagens de Cesare e Caligari são perfeitamente adequadas à concepção expressionista: o sonâmbulo, destituído de toda individualidade, isolado da vida cotidiana, criatura abstrata do inconsciente, mata sem motivo e lógica, enquanto seu mestre, que não possui sombra de escrúpulo humano, se considera acima do bem e do mal, e, implacável, é motivado por desígnios obscuros e impenetráveis.
13 de junho. Um ano qualquer. Eu nasci em 1979

* Dia do Turista
* Dia de Santo Antônio
* Umbanda - Exú (Bahia)
* Candomblé - Ogum (Bahia)

1569 - Fracassa o ataque a Lisboa do corsário inglês Francis Drake.
1611 - O astrônomo holandês David Fabricius observa pela primeira vez manchas no sol.
1721 - Aliança entre a Espanha, França e Inglaterra para garantir o cumprimento dos tratados de Utrecht, Baden e de Londres.
1763 - Nasce José Bonifácio de Andrade e Silva, político brasileiro considerado o patriarca da Independência do Brasil.
1790 - Nasce José Antonio Paéz, herói da independência da Venezuela.
1812 - Os Estados Unidos declaram guerra à Grã-Bretanha.
1859 - O presidente do México, Benito Juárez, declarou propriedade nacional todos os bens da Igreja.
1886 - Morre Luis II, rei da Baviera.
1888 - Nasce Fernando Pessoa, escritor português.
1902 - O governo do czar reforça as medidas para impor a língua russa na Finlândia.
1905 - Graves inundações nas províncias argentinas de Santa Fé, Entre Rios, Chaco e Formosa.
1920 - Uma bomba explode no Teatro Nacional de Havana durante a encenação de Aida, na apresentação do tenor Enrico Caruso.
1939 - Chegam ao México 25 mil exilados espanhóis.
1942 - Harrison Ford - ator norte-americano de cinema - Nasce.
1949 - Publicação da novela "1984", de George Orwell.
1953 - O presidente colombiano, Laureano Gómez, é deposto de seu cargo por um golpe militar dirigido pelo general Gustavo Rojas Pinilla.
1970 - A Junta das Forças Armadas nomeia o general Roberto M. Levingston presidente da Argentina, após destituir o general Onganía.
1976 - Militares uruguaios depõem o presidente Juan María Bordaberry.
1978 - As tropas israelenses deixam o Líbano.
1982 - Morre Jaled ben Abdel Azis, rei da Arábia Saudita. Ele é sucedido pelo seu irmão, o príncipe Fahd.
1988 - As forças iraquianas contém com dificuldade a ofensiva iraniana do Lago dos Peixes, na Guerra Irã-Iraque.
1990 - O líder sul-africano Nelson Mandela pede ao Parlamento Europeu ajuda econômica para custear os gastos do retorno de 20 mil exilados políticos a seu país.
1994 - Colômbia, México e Venezuela firmam o acordo de livre comércio do Grupo dos Três (G-3), a segunda maior zona de livre comércio da América.
1996 - O Parlamento da Bélgica elimina a pena de morte.
2000 - O turco Ali Agca, autor do atentado contra o papa João Paulo II, abandona a prisão de Arcona para ser extraditado para a Turquia, após ter seu crime perdoado pelo presidente italiano.



quinta-feira, 1 de julho de 2004

Inconsciente Coletivo
(sobre Mitos de Hollywood -abaixo)

Que ele existe é fato. Que sua recusa pode ser a recusa aos instintos inerentes ao humano; que estamos nos tornando máquinas individualizadas; que pena!
A humanidade deve reconhecer seus instintos, seus princípios, para conhecer e entender um pouco mais do mundo e do ser ao seu lado. Ao contrário disso, recusamos a voz do instinto, pois esse Deus, essa voz interior é Imperfeita. Difere do que nos ensinaram no catecismo...
Só existe o aqui e o agora. Se não vasculharmos nosso interior, como entender o Ser acima do céu? o nosso céu por dentro da carne, sangue, bile e ossos é o mesmo ou até mais interessante do que o superior.

Sem mais, ao texto.
Edu

MITOS DE HOLLYWOOD

Como a teoria do inconsciente coletivo de C. G. Jung aprimorou a psicologia hollywoodiana.


Por Luis Carlos Maciel

Revista Bravo! Dezembro/2001


O crítico de cinema da The New Yorker, Anthony Lane, cita coincidências impressionantes entre o filme Nova York Sitiada, dirigido por Edward Zwick, em 1998, com Bruce Willis e Denzel Washington, e a tragédia de 11 de setembro passado, em Nova York. Semelhanças foram notadas também entre o atentado e outras desconcertantes antecipações cinematográficas. Parece que Hollywood estava adivinhando o que ia acontecer, trazendo à tona premonições secretas do inconsciente coletivo. Quando, nos primeiros anos 30, Carl Gustav Jung apresentou ao mundo a sua idéia de um inconsciente coletivo, era improvável que alguém pudesse Ter percebido a sua utilidade para o já florescente cinema de Hollywood. Mas o desenrolar dos acontecimentos, a chamada história, haveria de torná-la evidente. Era inevitável. O inconsciente de Jung, como diz o nome, é coletivo, ou seja, está naturalmente presente nas platéias de todo o mundo. Inclui absolutamente todos os espectadores que passam pelas bilheterias.

Contemos a história do começo. Jung sustenta que, por baixo do inconsciente pessoal, descoberto por Freud em cada indivíduo, há uma parte mais fundamental da psique humana que é comum a todos os homens, em todos os tempos e lugares, uma espécie de herança psicológica comum a toda humanidade. Em 1934, ele escreve que "o inconsciente contém não apenas componentes pessoais mas também impessoais, em forma de categorias, ou arquétipos". Esses arquétipos se expressam por meio de símbolos que se manifestam nos sonhos de todos nós e nos mitos de todas as tradições culturais. Esses mitos, explica Jung, revelam a própria natureza da alma, são metáforas de nossa realidade interna mais profunda e essencial. De todos eles, o mais comum, o mais conhecido, é o mito do herói. Ele surge nas mais distantes e diferentes culturas - e todas as suas versões, embora sejam diferentes nos detalhes, são estruturalmente muito semelhantes. Obedecem a uma forma, um padrão, universais. Na Grécia clássica, em
tribos africanas ou de peles-vermelhas americanos, nos países nórdicos da Europa ou no Peru dos incas, os heróis míticos percorrem uma trajetória parecida.

Essa descoberta impressionou o norte-americano Joseph Campbell e, por intermédio dele, Jung chegaria mais perto de Hollywood. Ainda muito jovem, em fins dos anos 20, Campbell havia entrado em contato com a obra de Jung e passou a acompanhar sua trajetória intelectual. Ele haveria de se tornar célebre por ter dedicado toda a sua vida ao estudo das mitologias. Jung certamente o inspirou a assumir uma postura oposta à do estudo acadêmico convencional. A visão acadêmica se detém nas diferenças entre as mitologias e estuda os mitos em função dessas diferenças; Campbell, ao contrário, escolheu evidenciar as semelhanças, os denominadores comuns, que revelam uma espantosa unidade entre todos eles. Em 1949, ele publicou um livro intitulado O Herói de Mil Faces, cujas conseqüências foram consideráveis. Nele, mostra que cada herói adquire a face de sua cultura específica, mas sua jornada é sempre a mesma. É o mesmo herói que, segundo Campbell, vive, não muitos, mas sempre o mesmo mito, um
"monomito" - termo que ele declara ter tirado do Finnegans Wake, de James Joyce, sobre o qual publicara seu primeiro livro, A Skeleton Key to Finnegans Wake. Evidentemente, embora inspirada em Joyce, a idéia fundamental de O Herói de Mil Faces, o monomito, tem tudo a ver com o inconsciente coletivo de Jung.

Em 1983, Campbell é convidado para assistir à estréia de Star Wars, de George Lucas. O roteiro do primeiro filme da saga - como de resto de todos os outros três já produzidos e, por certo, também dos que vierem ainda a ser feitos - é inteiramente construído segundo o monomito de Campbell. Lucas lera O Herói de Mil Faces e se tornara seu fã incondicional. As diferentes etapas da jornada do herói, segundo o livro, são fielmente obedecidas nesse e em todos os filmes da saga. Milhões de pessoas, em todo o mundo, a acompanharam com devoção; as bilheterias foram algumas das maiores da história do cinema. A grande revelação do primeiro Star Wars foi de que o monomito funciona. O inconsciente coletivo é, em suma, bom para os negócios.

A revelação teve muitas conseqüências. Outros cineastas como John Boorman, Steven Spielberg, George Miller e Francis Coppola também começaram a ser influenciados por Campbell. Na verdade, Jung e Campbell chegaram a Hollywood em boa companhia. Aristóteles, Schopenhauer, Nietzsche e Hegel também já haviam ajudado o cinema a fazer dinheiro. Aristóteles foi o primeiro a explicitar a estrutura dramática; Schopenhauer e Nietzsche iluminaram a verdadeira fonte da ação dramática - a vontade; e finalmente Hegel, inspirado no velho Heráclito, apontaria no conflito o motor da realidade. O cinema de Hollywood já havia se aproveitado dessas conquistas do pensamento ocidental, comprovando a sua eficiência no processo de comunicação e, portanto, de conquista do público. Elas são o fundamento das técnicas de screenwriting - uma das invenções mais famosas do famoso know-how americano.



O SCREENWRITING TRADICIONAL JÁ FATURAVA BEM. MAS AGORA HAVIA MAIS!

No início dos anos 90, um jovem analista de histórias dos estúdios Walt Disney, de nome Christopher Vogler, escreveu um memorando interno de sete páginas, intitulado Guia Prático para o Herói de Mil Faces, e o distribuiu para os roteiristas de seu local de trabalho, como uma contribuição para uma maior eficiência dos roteiros. O sucesso foi desconcertante; em pouco tempo, a repercussão atingia os roteiristas de cinema de toda a cidade de Los Angeles que, como se sabe, não são poucos. O livro de Campbell e a adaptação que Vogler fazia dele, tornando-o útil para a elaboração de roteiros cinematográficos, viraram moda em Los Angeles. Em pouco tempo, o memorando de Vogler se tornaria um livro, intitulado A Jornada do Escritor, que seria admirado como uma bíblia do roteiro por roteiristas americanos novos e antigos.

O que fez Vogler? Muito simples. Ele ajustou o monomito de Campbell à estrutura dramática tradicional conforme ela é utilizada pelo screenwriting norte-americano. George Lucas já o havia feito na prática, mas, agora, ele formulava uma teoria e oferecia um método ao alcance de todos. A storyline do monomito é simples. O herói sai de seu ambiente familiar e seguro para se aventurar num mundo estranho e hostil - feito, por exemplo, de labirintos, cidades estranhas, outras dimensões, o que for... -, onde enfrenta um conflito de vida ou morte com um antagonista poderoso; a certa altura, parece que ele não poderá escapar à destruição, mas o herói acaba por triunfar. As etapas dessa jornada, que pode ser literal como em Star Wars ou também metafórica, são subordinadas por Vogler à estrutura tradicional de começo, meio e fim, em três atos, sintetizando assim Jung e Aristóteles, Campbell e Hegel, numa nova técnica de screenwriting.

Vogler começou a divulgar seu novo método nos estúdios Disney, na época de A Pequena Sereia e A Bela e a Fera. Daí em diante, os elementos míticos codificados por Campbell são utilizados cada vez mais sistematicamente, acabando por se tornarem determinantes, não só nos desenhos de Disney, como num número cada vez maior de filmes feitos em Hollywood, principalmente filmes "de ação" - que, em princípio, parecem mais receptivos à estrutura mítica -, mas também de outros gêneros, pois Vogler sustenta que o monomito serve a todo tipo de filme, inclusive comédias românticas.

Foi assim, portanto, que C.G. Jung chegou a Hollywood. O inconsciente coletivo e os arquétipos serviram, a princípio, apenas aos psicanalistas de orientação junguiana; depois, passaram a ser utilizados por escritores, pintores e outros artistas criadores; foram então apropriados por roteiristas que queriam fazer um trabalho mais eficiente; agora, finalmente, servem também aos executivos de poderosas empresas cinematográficas que avaliam as perspectivas de um determinado roteiro no mercado. Também aqui o critério conclusivo é o da eficiência.

É interessante notar que esse novo impulso nos negócios é dado sob a égide de um arquétipo típico de nosso tempo - o mito da eficiência. Já que a comunicação do monomito é infalível e que as maiores bilheterias são colhidas por filmes que deliberadamente lidam com o inconsciente coletivo e os arquétipos, pode-se dizer que a indústria de entretenimento mais desenvolvida dos dias de hoje tem a sua disposição ferramentas intelectuais muito poderosas. Na realidade, tão poderosas - podemos acrescentar agora - que as estamos vendo resultar em mistérios inéditos como, por exemplo, o manifesto nas recentes discussões provocadas pelas premonições cinematográficas dos eventos reais de 11 de setembro. Alguns, inclusive Robert Altman, chegaram a dizer que os terroristas teriam aprendido a agir assistindo aos filmes...

Será? Não creio. O inconsciente coletivo é a verdadeira explicação do fenômeno. Certos críticos que falam com desdém do cinema comercial de Hollywood deviam era dobrar a língua.